Me pediram pra escrever
Sobre minha perigosa aventura
Peço por favor que não riem
Dessa pobre criatura
Que pouco saber rimar
Mas que da morte conseguiu escapar
Sem perder a compostura.
Já lutei com um leão
O maior dos animais
Na serra dos braunais
Peguei cascavel de mão
Não conheço situação
Que não tenha o seu fim
Sou forte como marfim
Sempre estou preparado
Por isso tenha cuidado
Ao me chamar de minimim
Na sexta-feira à noite
De andar estava cansado
Bebemos Martini, vinho e cerveja
No sábado acordei lascado
E lá vem Renato com sua voz rouca:
-Fábio, vamos pra pedra da Boca!
Meu destino estava traçado.
Coloquei a minha bota
E fui subir no embalo
Andando um pouco senti
Meu pé cheio de calo
Entreguei a bota a Di Luiz
Que cansado e infeliz
Relinchava feito cavalo.
Eu, Bruno, Renato e Bozo
Carniçais sem frescura
Subimos a pedra
Sem água nem rapadura
Renato, o rei. Bozo, a rainha
Bruno esboçava uma risadinha
Com enorme doçura.
Chegamos enfim ao topo
Um lugar sem igual
Uma paisagem majestosa
De esplendor natural
Fotografia tiramos
Na memória registramos
Esta experiência vital.
Passado um pouco de tempo
Com a sede a apertar
E o sol sem perdoar
Veio a idéia de Girico:
-Vou voltar para o seu Tico!
Para a sede saciar.
Pus-me a descer as pedras
Desci sem freio e na contramão
Como ônibus sem motorista
Entrando errado, molecão
Usando os pés, e não a cuca
Fui caindo na arapuca
Desse destino brincalhão
Peguei o caminho errado
E não tinha mais como voltar
Não tinha ninguém por mim
Adiantava nem rezar
Gritei então por ajuda
Mas minha voz é aguda
Era difícil escutar.
Fui para uma pedra alta
Enchi os pulmões e gritei
Sem esperança de resposta
Foi ai que escutei
Um belo: VAI TOMAR NO CU
Ignorado, ferido e seminu
Os meus amigos eu praguejei.
Tentei mais uma vez
A atenção dos meus amigos chamar
Novamente me dizem
Para no cu eu tomar
Ajuda não vou mais pedir
Meu orgulho não mais vou ferir
A solução é me virar.
Com atenção e cuidado
Comecei a procurar um caminho
Morto de sede eu só pensava
Numa garrafa de vinho
De suor estava molhado
Fedorento e todo lascado
Era uma vez o pobre Binho.
Continuei andando
Caminhando com destreza
Para não escorregar e cair
Eu pisava com firmeza
Nessas horas percebemos
O quão somos pequenos
Diante da mãe natureza.
No decorrer da aventura
Haviam obstáculos mesquinhos
Uns miúdos
Outros grandinhos
Vi uma planta verde-limão
Percebi de antemão
Que a danada tinha espinhos.
Com um receio medonho
De numa pedra escorregar
A única solução
Era na planta agarrar
Tentei despistar a dor
E ignorando o calor
Comecei a escalar
Com ajuda das plantas
Pedra por pedra fui subindo
Até que achei uma trilha
E da morte fui despedindo
Encontrei o caminho certo
Dessa vez fui esperto
A esperança foi se abrindo.
Andei ainda um bucado
Até finalmente descer
Fui em direção do seu Tico
Para da água beber
Cheguei numa situação
De partir o coração
Só vendo pra crer.
Meus amigos quando me viram
Perguntavam a todo instante
Será do Haiti
Que provém esse imigrante?
Veio ele do Egito
Do inferno foi proscrito
Ou vem de uma terra distante?
Olhei bem para eles
A preocupação era evidente
Alguns até riram
Dessa figura deprimente
Viram sangue, dor, cicatriz
Da morte escapei por um triz
Nunca mais serei imprudente.
Se dar bem não é certeza
Mas é bom acreditar
O outro dia que temos
Poderá nos transformar
De certo temos a morte
Que tanto faz fraco ou forte
Ela não teme em levar.
Termino aqui minha história
Em versos para registrar
Uma experiência incrível
Que o tempo não vai apagar
Recebi do meu bando selvagem
Uma honrosa homenagem
Que pra sempre vou levar.
Fábio Farias.


